Saiba tudo sobre a festa judaica de Purim

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Purim é uma festa judaica que comemora a salvação dos judeus persas do plano de Haman para exterminá-los, no antigo Império Aquemênida, no século  IV a.E.C., tal como está escrito no Livro de Ester, um dos livros da Bíblia. A palavra hebraica Purim é o plural da palavra pûr que significa “sorteio”.  A festa leva este nome por ter sido o método usado por Haman, o primeiro-ministro do rei Achashverosh (Assuero) da Pérsia, para escolher a data na qual ele pretendia massacrar os judeus do país. Os judeus estavam exilados na Babilônia desde a destruição do Templo de Salomão pelos babilônios e dispersão do Reino de Judá, em 587 a.E.C. Tempos depois, a Babilônia foi conquistada e governada pela Pérsia, e os judeus ali viviam aparentemente em paz.  



Apesar de o Império Persa garantir certa liberdade de religião, o primeiro-ministro do rei Assuero, Haman, havia ficado ofendido com Mordechai, líder dos judeus da época que se recusou a inclinar-se perante Haman, pois para o Judaísmo isso é considerado idolatria. Haman logo convenceu o rei a emitir um decreto ordenando o extermínio de todos os judeus no dia 13 do mês judaico Adar. É nesse momento que a rainha judia Esther entrou para a história. Mordechai reuniu todos os judeus, convencendo-os a se arrepender, jejuar e rezar a D’us. E Esther conseguiu desmascarar Haman perante o rei. Mas o decreto não podia ser revogado. O rei então emitiu um novo decreto concedendo aos judeus o direito de se defenderem contra seus inimigos.  No dia 13 de Adar, os inimigos dos judeus se mobilizaram e atacaram os bairros judaicos, mas os judeus receberam o direito de se defenderem e com isso mataram muitos dos seus inimigos, vencendo as pequenas batalhas que ocorreram nas principais cidades do reino. Em 14 de Adar eles descansaram e celebraram. A partir daí, ao longo dos séculos, Haman tornou-se a personificação de todos os antissemitas nas terras onde os judeus foram oprimidos. 

O Livro de Ester não prescreve qualquer serviço religioso para Purim, apenas fala da celebração anual da festa entre os judeus nos dias 14 e 15 de Adar (equivalente ao mês de Março) ordenando que eles deveriam comemorar esses dias com festa e alegria, mandarem porções de guloseimas uns aos outros e donativos aos pobres. Essas comemorações são antecedidas por um jejum de 12 horas no dia 13 de Adar, conhecido como o jejum de Ester, que foi instituído por nossos sábios para relembrar o dia de prece e jejum que precedeu a vitória, orientado pela rainha a todos os judeus na antiga Pérsia. 


No dia 14, faz-se uma leitura na sinagoga do Livro de Ester,  marcada por muito barulho com reco-reco, apitos e vaias toda vez que o nome de Haman (o perseguidor) é lido em voz alta. Chamamos esta prática Klopping Haman – “Bater em Haman”. Esse costume é praticado para lembrar o mandamento da Torá que diz “Você deve apagar o nome de Amaleque” (Deuteronômio 25:17/19). Nesse caso Haman era amalequita e herdou seu racismo contra os judeus da sua cultura. 


O interessante é que o nome original de Ester era Hadassa, mas ela foi chamada Ester pelos persas por causa de sua beleza. O nome Ester foi derivado do nome Ishtar (a suposta bela deusa pagã), que, em si, originalmente derivada de “Istahar”, uma estrela muito brilhante, e em algumas culturas, a lua. Mas em hebraico Ester significa “escondido”, e isso faz alusão ao fato de que D-us atuou escondido, não através de milagres onde alterações físicas na natureza ocorreram, mas conduzindo os personagens para a realização do processo de salvação do povo judeu.   

Purim é um feriado incomum em muitos aspectos. Em primeiro lugar, Ester é o único livro bíblico em que D-us não é mencionado. Em segundo lugar, Purim, assim como Hanukkah (outra festa judaica), tradicionalmente é vista como um festival menor, mas elevada a um feriado importante, como resultado da experiência histórica judaica. Consequentemente, as transações comerciais e mesmo trabalho manual são permitidos em Purim. 

Depois da leitura do livro de Ester na sinagoga, os judeus vão para casa e comem uma refeição festiva. Um dos costumes é visitar um rabino ou qualquer pessoa que lhe ensinou lições de Judaísmo, mostrando o respeito aos mais sábios dentre o povo. Em muitos lugares, as pessoas (muitas vezes os estudantes religiosos das escrituras) produzem peças de teatro. Em geral, o tema é diversão e felicidade. Cantos e danças ocorrem nesta data, mas é proibido  agir de forma irresponsável (caso exista um excesso nas bebidas) ou ações perigosas. Esta felicidade é uma exigência da Lei, exceto para as pessoas que estão, D-us não o permita, de luto. Uma das guloseimas mais comuns é Oznei Haman (orelhas de Haman), que os judeus do leste europeu chamam de Hamentaschen, doce que é uma espécie de esfiha fechada com recheio de geleias ou qualquer outra coisa que a pessoa desejar rechear. 



Na manhã seguinte, depois das orações, o Livro de Ester é lido novamente, fazendo a mesma coisa toda vez que o nome de Haman aparecer (muito barulho). Depois, come-se uma refeição chamada de Katan Seudá (pequena refeição) e começam outras observâncias para essa data, como a doação de caridade pelo menos a duas pessoas pobres. Isto é chamado matanot le’evionim e se tornou uma exigência, uma obrigação de todo judeu no dia de Purim. A lei judaica diz que devemos dar a quem pede e orarmos para que D-us faça o mesmo para nós, para nos dar o que pedimos. Nossos sábios ensinam que Purim é o melhor dia para a prática de caridade, em que todas as pessoas dão o que podem e muitas vezes doam mais que o de costume por causa da data festiva, da alegria que envolve esse dia. Também é comum em muitas sinagogas organizar algum tipo de evento para fazer “leilões” com objetos importantes judaicos, e o dinheiro da arrecadação vai a metade para instituições judaicas e a outra metade para instituições não-judaicas. 

Também entra no quesito obrigação do dia a exigência de dar pelo menos a um amigo dois itens de alimentos que já estão preparados e prontos para serem comidos. Isso é chamado Mishlo’ach Manot. Isso está na Meguilá, o Livro de Ester, no capítulo 9, versículo 22: “… como os dias em que os judeus ganharam alívio dos seus inimigos, e o mês em que foi transformado por eles a partir de uma vida de tristeza a alegria, e o pranto em festa. Eles estavam a observá-los como dias de banquetes e de alegria, e para o envio de iguarias uns aos outros, e dádivas aos pobres.” 

Nós celebramos com alegria e felicidade a festa. Por isso vestimos fantasias, fazemos brincadeiras, passamos o dia com cantos e danças, visitando parentes e amigos para dar cestas de guloseimas e doces, contamos piadas, tendo a liberdade de beber com moderação e fazer caridade. Mas a principal refeição festiva de Purim é comida no final da tarde dessa data, no dia 15 de Adar, após a oração da tarde (Minchá). Deve-se comer pão, comer pelo menos um alimento cozido e beber pelo menos um copo de vinho, o que chamamos de kidush. Essa refeição é chamada de Purim Seudá.  

Antes e durante Purim desejamos uns aos outros “Purim Sameach” – um Purim alegre. Agora vale dizer que Purim é essencialmente uma festa sobre como D-us está escondido em tudo e nos bastidores da vida, e atua de forma clara para que a justiça e bondade prevaleçam. O significado de Purim não está tanto na forma como ela começou, mas no que ela se tornou: uma afirmação grata e feliz de sobrevivência judaica contra todas as probabilidades negativas. Das trevas surgiu esta estrela da manhã (rainha Esther), portanto, a lição de Purim é que D-us também faz as coisas de uma forma oculta, ou seja, D-us não precisa atuar de forma estrondosa, com milagres para todos verem, D-us está sempre por trás de tudo. 

Fonte: Diário da Manhã / Texto (Hai Mendel, economista, da comunidade judaica de São Paulo)

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